O que é o Harness²
O Harness² é um trabalho do Google Research, publicado em outubro de 2026 sob licença Apache-2.0. A ideia central: o modelo de linguagem fica fixo, e o que se otimiza é o “harness”, tudo o que cerca o modelo numa tarefa, como as instruções, as guardas, a memória e a orientação sobre ferramentas.
O passo central tem três tempos. Um editor propõe mudanças em duas frentes: o procedimento (como fazer) e o conhecimento de especialista (o que saber). Cada candidata roda na mesma tarefa. A versão final é composta pelo contraste entre as execuções, sem gabarito. “Manter a base” é uma resposta válida, e a escolha final é feita às cegas, julgando cobertura, depois correção, depois fidelidade.
Depois de cada tarefa fica uma lição, no formato gatilho, lição, evidência e confiança. É esse registro que faz o harness melhorar de uma rodada para a outra.
Quem escreve o prompt
- Muda a instrução
- Roda alguns casos
- Olha o resultado
- Decide no olho
Cada mudança vira opinião. Ninguém sabe se melhorou ou se o caso era fácil.
Oficina
- Propõe candidatas em duas frentes
- Roda todas na mesma tarefa
- Compõe pelo contraste, às cegas
Médico
- Publica, ou não
A régua decide o que é melhor. A pessoa decide se entra em produção.
Como usamos na Estação Clínica
Lemos o artigo em 20 de outubro e, no mesmo dia, desenhamos a “oficina de agentes” da Estação Clínica. Entrou só o conceito: nenhum código, prompt ou texto foi copiado. O primeiro alvo foi o Escriba, o agente que escreve a nota da consulta; depois vieram o resumo, a segunda leitura de exames, o WhatsApp e a Irene, a nutricionista do WhatsApp.
Duas peças do método foram recusadas de propósito. A adoção automática da versão vencedora: na Estação, só o médico publica. E os “fatos do ambiente” gravados junto com a versão: em saúde, isso seria dado de paciente dentro de um prompt.
Estação Clínica
Oficina de agentes- 1ProporUm editor sugere candidatas para o procedimento e para o conhecimento de especialista. Ele não vê o gabarito.
- 2TestarCada candidata roda sobre as mesmas consultas sintéticas, e uma régua em código mede recall de fatos, de números e números sem fonte.
- 3ComporA versão final sai do contraste entre as execuções. Se nenhuma candidata vence com folga, a resposta é “manter”.
- 4PublicarSó o médico. A oficina entrega um relatório; quem decide é gente.
- Roda só num tenant sintético, apagado no fim.
- Toda chamada passa pelo funil de pseudonimização.
- A régua é código, não a nota do próprio modelo.
- O relatório leva contagens e hashes, nunca texto de consulta.
Se a oficina não convencer, nada muda: a versão em produção continua a mesma.
O que aconteceu em três rodadas
Na primeira rodada, sobre o Escriba, a linha de base já tinha 100% de recall no conjunto de teste. A oficina custou US$ 0,15 e respondeu “manter”. Uma trava de identificador barrou a frente de conhecimento por um falso positivo, corrigido depois.
Na segunda, montamos um conjunto difícil de 30 consultas, 18 de treino e 12 de validação. A oficina adotou uma candidata: os erros em armadilha caíram de 2 para 0, por US$ 0,85. Era bom demais. Repetimos a validação três vezes e a candidata foi reprovada: o recall de números caiu de 96,1% para 90,2%, e os números sem fonte subiram de 2 para 4. O “2 → 0” era ruído de uma rodada só.
Na terceira, 126 propostas por US$ 1,28, e de novo “manter”. A lição mais cara do mês foi a regra que ficou: nenhuma candidata entra sem três repetições na validação.
| Rodada | Conjunto | Decisão da oficina | Confirmação com 3 repetições | Custo |
|---|---|---|---|---|
| 1 · Escriba | Conjunto de teste, base com 100% de recall | Manter | Não precisou | US$ 0,15 |
| 2 · Escriba | 30 consultas difíceis, 18 de treino e 12 de validação | Adotar (erros em armadilha 2 → 0) | Reprovada: recall de números 96,1% → 90,2%, números sem fonte 2 → 4 | US$ 0,85 |
| 3 · Escriba | 126 propostas | Manter | Não precisou | US$ 1,28 |
Quando o ganho estava no modelo, não no harness
A mesma régua serviu para uma pergunta que o Harness² não faz: e se o problema for o modelo? Rodamos o Escriba com Opus 5.5 e com Sonnet 5.5 sobre o conjunto de validação. O Opus acertou tudo e custou 2,6 vezes mais por nota. Para uma nota de consulta, onde um número sem fonte é um risco clínico, o Opus passou a ser o modelo recomendado.
Recall no conjunto de validação
Sonnet 5.5Opus 5.5
Fatos da consulta na nota
Sonnet 5.5: 98,3%Opus 5.5: 100%Números da consulta na nota
Sonnet 5.5: 96,1%Opus 5.5: 100%
Custo por nota
2,6×
O Opus custa 2,6 vezes mais e não erra número
Números sem fonte, nas 12 consultas de validação
Um número na nota que não está em nenhuma fala da consulta.
Ver os números em tabela
| Sonnet 5.5 | Opus 5.5 | |
|---|---|---|
| Recall de fatos | 98,3% | 100% |
| Recall de números | 96,1% | 100% |
| Números sem fonte | 2 | 0 |
| Custo por nota | US$ 0,008 | US$ 0,021 |
A segunda leitura do exame
O segundo alvo foi a leitura de resultados de exame, onde o erro clássico é somar errado as frações do leucograma. Sobre 12 laudos sintéticos com armadilhas, o Sonnet 5 com as instruções de hoje errou 4; com uma regra escrita sobre o total, errou 0 e ficou mais barato; o Haiku 4.5 errou 0 com as instruções de hoje.
As duas rodadas reais da oficina sobre esse alvo responderam “manter”, por US$ 0,095 e US$ 0,085. Nada foi publicado pela oficina. A regra do total entrou pelo caminho normal, com revisão, e no tenant real a fatia de laudos lidos só pela IA caiu de 28,9% para 17,4% entre a versão 3 e a versão 4. Essa comparação não é limpa: o leitor em código também mudou entre as duas.
| Leitor | Erros em armadilha (de 12 laudos) | Custo da rodada |
|---|---|---|
| Sonnet 5, instruções de hoje | 4 | US$ 0,26 |
| Sonnet 5, com a regra do total | 0 | US$ 0,19 |
| Haiku 4.5, instruções de hoje | 0 | US$ 0,11 |
O que ainda não sabemos
- 01
Tudo sintético
A oficina só roda sobre consultas e laudos sintéticos. É a condição para existir em saúde, e também o limite: a distribuição real pode ser outra.
- 02
Uma rodada mente
A candidata “2 → 0” passou numa rodada e caiu em três. Qualquer número de uma execução só, inclusive os desta nota, vale menos do que parece.
- 03
A comparação no tenant real não é limpa
Entre a versão 3 e a 4 do leitor de exames mudaram a regra e o código. A queda de 28,9% para 17,4% na fatia “só IA” não pode ser atribuída a uma coisa só.
- 04
Custo da oficina contra o ganho
Três rodadas custaram menos de US$ 2,50 e produziram uma regra de processo e um “manter”. Compensa como método de decisão; não é uma máquina de ganhos automáticos.
Próximos passos
- Em curso
1. Três repetições como regra
Nenhuma candidata entra sem três execuções na validação, em todos os alvos.
- Depois
2. Oficina no WhatsApp e na Irene
Os alvos existem desde o fim de outubro; faltam rodadas com conjunto difícil próprio.
- Horizonte
3. Lições que atravessam alvos
O registro gatilho, lição, evidência e confiança alimentando o próximo alvo, não só o mesmo.
A régua decide o que é melhor. A pessoa decide o que entra.
Se a oficina provar valor em mais alvos, ela vira a porta por onde toda mudança de agente passa: proposta, teste na mesma tarefa, contraste e um relatório para quem publica. Sem gabarito e sem adoção automática.
- Manter a basequando nenhuma candidata vence com folga
- Relatório para o médicoquando uma candidata passa três vezes
- Lição registradasempre, com gatilho, evidência e confiança